Covid-19. Um mundo em guerra

Ministra da Saúde, Secretário de Estado e Diretora Geral de Saúde não são criminosos de guerra, são “incompetentes” responsáveis pela marginalização dos idosos com especial relevância para os profissionais da saúde empenhados no combate ao “covid-19.

O que nos diz um profissional da saúde

“Precisarmos de assistir um doente e não temos como o fazer é muito violento”

O testemunho do diretor do serviço de Medicina Intensiva do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, João Miguel Ribeiro. O intensivista de 51 anos reflete sobre os desafios de lidar com uma epidemia de dimensões imprevisíveis

João Ribeiro

“O isolamento é muito violento para os pacientes, mas também para os profissionais de saúde. Como em Medicina Intensiva a probabilidade de contágio é muito elevada, temos de estar totalmente equipados com material de proteção e os doentes não veem propriamente o médico ou o enfermeiro. Esta doença também tem esse lado violento. Para mim, isso é muito disruptivo. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, valorizamos muito o contacto com os pacientes na Medicina Intensiva.

Os números relativos à evolução da epidemia em Portugal são preocupantes e exigem que nos preparemos de forma rápida. O cenário poderá vir a ser semelhante ao de Espanha, se bem que nós tomámos medidas preventivas mais precocemente. É muito difícil ter certezas nesta altura, mas o que se passa noutros países obriga-nos a ter um grande sentido de responsabilidade.

A minha primeira preocupação são as pessoas que verão a sua vida afetada por esta doença. Depois há a preocupação com o impacto nos serviços de saúde e a eventual rotura da capacidade assistencial, como estamos a assistir noutros países. Mas há outra preocupação um pouco oculta, mas que se está a instalar, que são as pessoas que ficam com os seus problemas de saúde por resolver devido à suspensão da atividade não urgente nos hospitais. O que estamos a viver também nos faz refletir sobre qual será o modelo civilizacional que irá emergir após esta situação. Provavelmente, vamos ter de aprender a viver com o vírus. Dependemos muito da resposta da ciência e da capacidade de criar uma vacina eficaz.

Esta doença pode confrontar-nos com a possibilidade de não conseguirmos prestar cuidados que as pessoas efetivamente precisam. Não termos um ventilador para ligar a um paciente… É assustador. Precisarmos de assistir um doente e não termos como o fazer é muito violento. Não acredito quando dizem que os médicos estão preparados para algo assim. Essa não é uma escolha natural para um médico. Nenhum ser humano está preparado para ver o seu semelhante sofrer.

Em alturas como esta, temos de fazer um trabalho de revigoramento interior. Não podemos perder a clarividência em relação à vida e ao que nos faz sentir parte integrante do mundo. Esta é uma fase muito crítica neste aspeto, às vezes, distraímo-nos disso. É fulcral lembrar as equipas de que não podem romper o seu contacto com a vida.

É importante sentirmos que não estamos sozinhos e que as pessoas estão motivadas. Nestes momentos, percebemos que há quem tenha reservas de solidariedade imensas. É uma boa oportunidade para nos deixarmos contagiar por elas.

Nos últimos quinze dias, em nenhum momento pensei que preferia estar em casa. Em nenhum momento pensei isso. Junto da família, estou numa posição um pouco privilegiada. Tudo aquilo que eu faça ou não faça é visto como inevitável. Há uma aceitação quase natural das falhas.

Estamos a preparar uma área que vai permitir acomodar mais profissionais de saúde que precisem de pernoitar. Eu também lá devo ficar alguns dias. Nestas situações extremas, o contrato coletivo assume tanta importância que as pessoas, muitas vezes, encontram mais conforto no grupo do que em casa.

Não dominamos uma ciência com capacidades ilimitadas. Temos de aceitar isso e de reconhecer as nossas limitações. Para isso, é fundamental termos a consciência tranquila. Depois, há casos com uma perspetiva mais pessoal porque se estabelece uma relação mais forte com o doente ou porque a doença tem uma evolução mais inesperada e violenta.

Aprendemos muito com os doentes. Todos os médicos transportam vivências que os marcaram. A maioria dos profissionais tem um canto da sua memória onde guarda vivências marcantes. Nem todas com um final infeliz ou catastrófico.”

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