O herói de Pedrógão voltou ao combate em Mação mas está triste: “O fogo só acaba quando arder tudo”

Sérgio Lourenço fotografado há dois meses em Pedrógão, onde há dois anos salvou mais de dez pessoas. Em Mação, foi ajudar a corporação

Sérgio Lourenço é um dos nomes que marcou há dois anos o combate ao grande incêndio de Pedrógão Grande que acabaria por matar 66 pessoas. O fogo matou, mas Sérgio, bombeiro voluntário, deu a volta ao destino e salvou sozinho mais de dez pessoas. Desta vez, foi chamado para ajudar no combate ao incêndio de Mação. Uma hora depois de ter sido rendido, esta segunda-feira à tarde, contou ao Expresso o que viu no concelho vizinho.

O fogo de Mação começou na sexta-feira (dia 19 de Julho) e alastrou a Vila de Rei. Toda a ajuda é pouca. Os meios estão disponíveis, mas a violência do fogo é maior, diz Sérgio Lourenço, bombeiro voluntário em Pedrógão Grande, que esteve a combatê-lo até à tarde desta segunda-feira e conta o que viu

Fui chamado no sábado, dia 20, logo pela manhã. O meu comandante, Augusto Arnaut, já estava no terreno e eu fui chamado para o render. Eu nem estava de serviço pré-definido. Fui sozinho, para servir de reforço. Fiquei até ao meio da tarde desta segunda-feira. Cheguei há pouco. Pelo caminho tive um problema com o carro do comando.

Encontrei um fogo terrível. Muito fogo. É triste ver aquilo tudo a arder, as pessoas a perderem as suas coisas. Custa. Temos de nos habituar que agora os fogos ardem muito rápido. Parece que daqui para a frente será sempre assim. As condições climatéricas são atípicas, está tudo muito seco e há muito combustível. O que está a arder é o que cresceu desde 2005.

É estranho, porque Mação é um concelho modelo, as estradas estavam limpas, a mata ordenada, mas quando tem de arder, não interessam os meios. Vai arder. Se calhar, arde mesmo porque é um concelho modelo. Há muitos interesses envolvidos. Não são só malucos os que andam por aí.

Quando cheguei, já encontrei um fogo de grandes dimensões. Os aviões fazem a diferença, mas não resolvem tudo. Houve também muita ajuda em terra. Mas temos de perceber que está a mudar: antes o fogo ia crescendo, agora é impressionante, a vegetação arde até ao fim. O fogo tem mais intensidade.

Este é um fogo diferente do que enfrentámos há dois anos. Ainda não voltei a ver nada igual ao que aconteceu em 2017 em Pedrógão. Também andei no 15 de outubro, mas agora nada é igual.

Em Mação, a zona é imensa, há muito para arder. Os meios de combate estão lá, estão disponíveis. Éramos uma brigada, juntámo-nos com outra e foi criado um Grupo de Reforço de Combate a Incêndios, tivemos de nos encaixar no que já lá estava. É diferente de comandar um fogo que acompanhamos desde o início.

Não tive receio por mim, quem me conhece sabe que não sou de receios, tenho medo pelas pessoas. E tenho a certeza, o fogo só vai acabar quando arder tudo. É muito fogo em Mação. Ou se chover, mas isso depende da sorte — e a meteorologia avisa que ainda vai aquecer mais. Aquele fogo só acaba quando acabar.”

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