No tanto que não sabemos, uma coisa é certa: temos o imperativo moral de repensar a forma como tratamos os mais idosos

Artigo de opinião de Francisco Sena Santos

Não sabemos quantas partículas de vírus são necessárias para desencadear a infeção. Não sabemos quando vai ser conseguido um tratamento. Não sabemos se, quando o desconfinamento começar, as pessoas vão continuar a respeitar o distanciamento social, apesar de subsistir a ameaça de contágio. Sabemos que os mais seniores são alvo privilegiado do covid-19 e também ficámos a saber (muitos não tínhamos cuidado a devida atenção) que temos o desafio – é um imperativo moral – de mudar radicalmente a nossa atitude, e a política do Estado, na relação com os mais idosos.

Temos o dever de cuidar a decência, não apenas agora, mas em modo permanente, definitivo, dos mais idosos que vivem em lares ou outras residências para seniores, algumas com condições absolutamente inadequadas.

A pandemia expôs-nos a triste sobrevivência dentro de lares. Não é apenas a crise da exposição ao vírus. É a degradação das condições para vida decente em alguns lares, com muito escasso orçamento, alguns muito pobres, onde falta o pessoal adequado para cuidar das pessoas.

Estes dias de emergência revelaram queixas por comida horrível, higiene descuidada (há lugares onde os internos apenas tomam um banho por semana ou nem isso?), assistência médica descuidada.

As residências para seniores, lares ou o que lhes quisermos chamar, tornaram-se uma necessidade no modelo de sociedade que temos tido. Há lugares de excelência, para quem os pode pagar. Mas num país onde tanta gente tem escassos recursos, muitos recorrem ao que aparece a baixo preço. Até pode haver diligência da parte de quem tenta acolher, mas o resultado não pode ser o lar tornar-se um ultrajante depósito de pessoas à espera do dia da morte.

A covid-19 veio expor como é um imperativo que todos repensemos a fundo as políticas para cuidar os seniores. Esta é uma das poucas certezas que o vírus já nos passou.

Continuam a faltar-nos respostas para as perguntas principais, mas há uma outra certeza: desenhar e ativar o plano de desconfinamento, quando e como, é, seguramente, a mais delicada decisão que os governos têm para tomar em toda a história recente, sob a ameaça de relançamento da pandemia em progressão exponencial.

A covid-19 mostrou ao mundo o risco que é não estarmos preparados para uma ameaça julgada de muito baixa probabilidade mas com muito altas consequências.

Toda a gente tende para desprezar o que parece ter ínfima probabilidade. Associamos baixa probabilidade a algo que nunca nos acontece. Quantos imaginaríamos, há apenas três meses (meados de janeiro) que alguma coisa, ainda mais impensável essa coisa ser um vírus invisível, iria bloquear o modo de vida em todo o planeta? Aprendemos que há ameaças daquelas que julgaríamos só passarem pela ficção, mas que são reais, terríveis. É um alerta que vale imediatamente para as alterações climáticas. Há pouco mais de um ano, um grupo de investigadores da Universidade Autónoma de Barcelona alertava para o grau de ameaça de uma “tempestade geomagnética”.  Apontaram que a probabilidade é baixa. A do coronavírus também era. Aprendemos que nos falta estarmos preparados para as consequências do improvável.

O vírus também nos está a mostrar o tanto que ainda não sabemos.

Não sabemos ao certo quantas pessoas estão infetadas pelo mundo.

Não sabemos o que é que vai ser preciso para exterminar este vírus – sabemos que a distância social nos protege.

Não sabemos ainda se a vacina, quando for conseguida, vai ser, como é devido, um bem público.

Não sabemos se o vírus nos vai deixar fazer praia neste verão.

Não sabemos se quando o próximo ano letivo começar, em setembro, vamos poder estar genericamente livres da ameaça do vírus.

Não sabemos quando poderemos voltar às esplanadas.

Não sabemos quando poderemos voltar a uma sala de cinema ou teatro.

Não sabemos se vamos ter medo quando voltarmos a estar no meio de um mar de gente.

Não sabemos se os que estão curados estão livres de novo ataque da covid-19.

Não sabemos que efeitos terá deixado o vírus nas pessoas declaradas curadas.

Não sabemos se os testes serológicos poderão dar-nos uma imagem expressiva da imunidade do(s) país(es).

Não sabemos que sofrimento económico nos vai causar, e por quanto tempo, esta pandemia.

Não sabemos que voltas é que esta pandemia vai dar à globalização.

Não sabemos se a União Europeia vai resistir como algo mais que uma associação comercial ou até, se poderá sair finalmente fortalecida.

Não sabemos se a pandemia vai retirar espaço aos envenenados discursos populistas ou se até os poderá tornar mais virulentos.

Não sabemos quantos dos tantos milhares de portugueses que viveram nos últimos anos com o rendimento do trabalho no turismo vão poder voltar a ter essa oportunidade.

Não sabemos se as viagens low cost vão resistir.

Não sabemos se vamos entrar numa expressiva alteração dos modelos de trabalho, com passagem ampla ao teletrabalho.

Não sabemos quantas pessoas teremos perdido no fim disto tudo.

Não sabemos quando é que isto vai acabar.

Ficámos a saber que não é uma aberração mas uma opção de prudência estarmos preparados, e isso será à cabeça missão dos Estados, para o imprevisível. O que só tem 0,1% de probabilidade acontecer pode suceder.

O MUNDO NÃO É SÓ COVID-19

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